sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A Crise da Transmissão da Fé

por
Rev. Ricardo Barbosa de Souza



A transmissão da fé em nossa cultura secularizada requer de nós novos cuidados e preocupações que nossos pais não tiveram
Uma preocupação que vem crescendo e provocando muitas conversas tanto dentro da Igreja Católica como na Evangélica é o da transmissão da fé para as futuras gerações. Na Europa, alguns estudiosos já demonstraram isso em trabalhos como o do espanhol Juan Martin Velasco, que escreveu La transmissión de la fé en la sociedad e do bispo alemão J. J. Degenhardt, com seu livro Crisis of the transmission of the faith, em que ambos apontam um fenômeno, não só europeu, mas ocidental, envolvendo principalmente as igrejas cristãs.
Existem várias causas para isso, mas a secularização da sociedade ocidental é apontada por todos como a causa primeira desta crise. Olhando para o Brasil, vemos uma Igreja que ainda cresce numericamente, mas que tem perdido sua relevância cultural, social, política e econômica. E vem perdendo também suas raízes históricas e teológicas. Uma Igreja que oferece uma infinidade de programas, atividades e várias formas de entretenimento religioso, mas que tem perdido a capacidade de criar, principalmente nas novas gerações, um grau de compromisso e fidelidade para com a verdade bíblica. O que os membros fazem no domingo tem pouca ou nenhuma relação com o que fazem nos outros seis dias da semana. Nossas tradições foram descartadas, nossos valores relativizados e nossas convicções se transformaram em discretas e frágeis impressões religiosas. Vemos também, inclusive dentro da Igreja cristã, a intensificação do individualismo como resposta à secularização e o crescente movimento da moderna psicologia, que valoriza o "indivíduo autônomo" em sua busca pela auto-realização.
Diante de um cenário assim, ao olhar para o futuro do cristianismo, somos tomados por um sentimento de apreensão e perplexidade. Por um lado, sabemos que a Igreja é de Cristo e é ele quem a sustenta e guarda – no entanto, a história da Igreja é dinâmica e, em muitas nações e até continentes onde ela já foi viva e forte, hoje não é mais. Portanto, temos que refletir sobre nosso papel nesse processo e como será o processo de transmissão da fé para as novas gerações.
A transmissão da fé em nossa cultura secularizada requer de nós novos cuidados e preocupações que nossos pais não tiveram. No passado, com a centralidade da religião e da família na cultura ocidental, o processo era natural. Hoje, nenhuma das duas ocupam mais este lugar. Antigamente, os valores e convicções cristãs eram claramente definidos e aceitos socialmente. Eram eles que estabeleciam uma fronteira clara entre o que era certo e errado ou entre o que era pecado e o que não era. A identidade do cristão era socialmente bem definida, o que lhe dava também uma certa segurança e responsabilidade. Agora, não – falta essa identidade clara e os valores e convicções evaporaram. A grande pergunta que se coloca diante de nós é: como iremos transmitir para nossos filhos e netos os valores e princípios da fé cristã?
A nova preocupação com a "espiritualidade" pode ser uma resposta à crise da transmissão da fé. Muitos têm confundido espiritualidade com uma forma de intimismo religioso que surge como resposta ao individualismo secularizado, intensificando a alienação e não promovendo um relacionamento real e verdadeiro com o Deus triúno da graça. Para ser relevante, a espiritualidade precisa oferecer uma resposta à crise da transmissão da fé, fundamentando-se na revelação bíblica de Deus como uma Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).
Uma espiritualidade fundamentada na Trindade nos conduz a um relacionamento pessoal com Deus-Pai que não é fruto de uma compreensão particular e intimista, mas da revelação que Jesus, o Filho unigênito nos apresenta. Conhecer a Deus Pai não é o resultado das projeções das nossas melhores intenções paternas, mas o resultado exclusivo da relação única que o Filho eterno tem na comunhão com o Pai. Somente Cristo é quem nos revela a natureza paterna de Deus. Conhecer a Cristo é conhecer aquele que nos foi enviado pelo Pai e que realizou por nós, na cruz do Calvário, a gloriosa obra da reconciliação através da justificação e do perdão dos nossos pecados. Compreender o que Jesus fez na cruz e responder ao Pai em comunhão, obediência e adoração só nos é possível pelo poder do Espírito Santo, que abre nossos olhos, levando-nos a compreender nosso pecado e a necessidade de redenção. E que também nos abre para Deus por meio de Cristo e para a comunhão com os santos.
O caminho para enfrentar a crise da transmissão da fé passa por uma espiritualidade centrada na Trindade e nas Sagradas Escrituras. Somente a partir de um relacionamento pessoal com o Deus trino da graça é que poderemos recuperar o valor daquilo que é verdadeiro e resistir à subjetividade da cultura secular. Compreender a realidade a partir da revelação de Deus em Cristo, e não através da psicologia e sociologia modernas, nos libertará da percepção reducionista da cultura secular e nos conduzirá a uma compreensão profunda e realista da natureza humana, da nossa condição social, dos propósitos da criação e da comunhão com o Senhor e com o próximo.
Olhar para a realidade a partir da auto-revelação de Deus em Cristo nos conduzirá a uma nova dinâmica de vida e fé onde todos os eventos, encontros, experiências, desejos, ações e paixões serão holisticamente absorvidos em Cristo. É isso que nos tornará mais verdadeiros e nos conduzirá à vida abundante prometida pelo Senhor. O legado que precisamos deixar para as novas gerações envolve um caminho de fé que nos conduza a uma completa rendição e entrega, da mesma forma como o Filho de Deus se entregou por nós em amor e obediência ao Pai. Somente através de uma conversão real e dinâmica é que as novas gerações irão reconhecer o valor pessoal, histórico e social da fé cristã e responderão a ela numa vida de obediência, amor, comunhão e serviço.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um mundo feito de aço

Vendo algumas fotografias e frases que seguiam junto delas,li uma algo muito interessante:
"Para mim as metalúrgicas são deuses poderosos, que comandam a sinistra produção de metal que domina o mundo. Nelas, tudo é violento, desproporcional, trágico. O metalúrgico sabe que trabalha na fronteira da morte, entre rios de metal escaldante e frente às caldeiras do inferno. Ele entende que o mundo é controlado pelo aço."
Sebastião Salgado
Acredito que, como o autor da frase, aprendi a ver o mundo fromando-se assim, através de muros feitos de aço e concreto.E esses muros se arraigaram no coração do homem.
Se o amor de muitos esfriaria, essa é a geração em que isso ocorre com maior plenitude, sente-se isso, respira-se isso, nos jornais, ruas, nas casas.
Metais... interessante o valor que atribuimos a eles...
No livro "A Utopia"(literalmente o não-lugar de nenhum lugar), o humanista e jurista inglês Tomás Morus (1478-1535), descreve o valor dos metais preciosos. Na sociedade prejetada em seu livro o ouro serve para construir as coisas mais vis existentes, as pedras preciosas enfeitam as crianças, que logo querem entregá-las a outras crianças por terem se tornado adultos.A Bíblia mostra o céu com ruas de ouro e o mar feito todinho de cristal.Lá não importa o quanto você tem e sim quem você foi e em que creu.
Metais, um mundo feito de metais que sustentam a ganância, a maldade, por eles o mundo gira e o mundo de alguns para de girar por causa deles.
Dinheiro... papel que compra metal, que tem sustentado um fé morta, desertora e falsa. Uma fé que busca bens, que de nada valem quando se observa da perspectiva do amor.Uma fé que olha para o Salvador como um banqueiro e que se vê como "filho do rei" quando é a vida aborratada de "bençãos" está em jogo, e que esquece que o primogênito entre todos, o Cristo, se fez o mais sofredor e pobre entre todos os homens, homem de dores que soube sim o que era padecer.Que fé é essa que enche templos, que ridiculariza o cristianismo da cruz, do abrir mão,do dar em lugar de receber, do estender a mão, do servir, do amar? Fé que não sabe amar, apenas visa lucros.
Abro mão dessa fé que usa os outros para seus próprios interesses, tentam barganhar com Deus, usando as próprias escrituras para isso (embora isso não seja novidade porque Jesus Cristo foi tentado no deserto da mesma forma). Conhecem a verdade e distorcem ela. Creio que a estes restará a frase - "Não sei donde vós sois; apartai-vos de mim".
Abro mão dessa fé mediocre que encobre quem Deus de fato é, e o que Ele fez por nós.
Em nome da minha FÉ digo:
Deus é amor.
Veio nos salvar.
Salvação, preço pago sem nenhum metal, mas com um liquido precioso - SANGUE.
Preço que eu nunca poderia pagar, nem sei o quanto vale... ou sei , para mim vale a minha vida e a de muitos outros a quem eu possa mostrar o que realmente importa, algo de importante pelo que se possa viver e também morrer - Deus.
E o legado mais precioso que ele deixou conosco -IR, falar dEle. Só.
Talvez assim eu e muitos outros que pensam como eu, possam esquentar um pouco o amor dessa geração.
Fazer com que corações de aço se transformem em corações vivos, cheios de FÉ, esperança e novamente amor, sendo o maior destes o AMOR.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Deus que responde, Deus de milagres


Vou contar duas histórias e depois podemos refletir sobre elas.
A primeira história é tão sem solução, para nós, quanto a segunda e se olharmos para elas sem o final, podemos perceber que nada, absolutamente nada, está em nossas mãos.
Como é difícil não ter o controle e percebermos que o que temos, é o nada ao nosso alcance.
Vou falar de um homem conhecido por sua paciência. Esse homem sofreu a perda de tudo que tinha, mas além de perder o material, ele perdeu o melhor de todos os presentes que se pode querer: a saúde. O que somos se não temos esse bem maior sob nosso controle?
"A identificação de doenças com nomes antigos não é fácil tarefa, mas a opinião médica dos nossos dias sugere que a doença deste homem fosse um caso de Furunculose Estafilocócica Generalizada, outros falam em Elefantíase e ainda em lepra. O Prof. Flamínio Fávero, Catedrático de medicina legal na faculdade de medicina de São Paulo , ligada ao hospital das clínicas, conclui que a doença deste homem era o Pênfigo Foliáceo, ou Fogo Selvagem."
Seja qual for a doença que este homem tinha, o fazia sofrer muito ,dores terríveis! Mas o que nos faz pasmos é perceber que a maior tristeza dele era pensar estar longe do Criador e não apenas o fato de estar doente. O que faz esse homem tremendamente, maravilhosamente conhecido por tanto tempo: sua fé. Fé em seu Redentor ele sabia que estava vivo e que por fim se levantaria e olharia para sua situação, transformando tudo em muito melhor! Ele sabia que o seu Senhor, era o Deus que responde! O que este homem fez? Falou! O que o seu Deus fez? Respondeu! O nome deste homem? Jó.A outra história é a de uma mulher, esta sem nome e sem rosto, mais uma em meio a multidão de doentes e pedintes que rodeavam um certo Homem que passou por aqui há alguns muitos anos atrás. Mulher pobre e sem rosto, quem era ela numa multidão? Ela sofria de uma hemorragia havia doze anos, gastou tudo o que tinha com médicos, ninguém conseguiu fazer nada (e novamente o nada nos olha com sua frieza e incredulidade). Porém, esta mulher viu o Homem, Aquele que não tinha formosura aparente, mas que era o que É e o que há de vir, Primeiro e Único, Princípio e Fim, Princípe da paz. Ela apenas tocou a orla de sua veste, por trás da tão temida multidão que o apertava. Aconteceu o inesperado:
- Quem me tocou?
- Uma multidão te tocou! - Responderam os discipulos
- Alguém me tocou com fé, porque de mim saiu poder!
A mulher, sabendo que não podia esconder-se daquele que tem TUDO em suas mãos, se prostrou e confessou que o tocando foi imediatamente curada. Porque? Porque ela creu no Deus de Milagres!Entender que somos nada e que o nada é só o que temos em nossas mãos, é difícil, somos prepotentes e orgulhosos. Ter certeza que Jesus Cristo é este Deus que é TUDO e que Ele é o único que tem TUDO em suas mãos, também é, porque temos que abrir mão de nós mesmos e entregar o fardo.Entender que há alguém olhando por nós e que cuida de nós, em detrimento do que nossos olhos estejam vendo haja o que houver, Ele é quem domina.
Diante disto, nós temos duas opções: Crer que Ele É e entender que esta verdade é a única que existe, ou negar esta verdade e não ter em quem confiar, não ter esperança, não ter fé.
Talvez os nossos problemas muitas vezes pareçem engolir a nossa alma, desdenhar da nossa esperança, brincar com a nossa fé, mas a partir do momento que nos entregamos a esse Deus que emana poder e graça podemos perceber que nada é em vão, que em tudo que há propósitos e que Suas promessas em nossas vidas são de paz. Basta tão somente entrgar e o trabalho cabe a esse Pai de amor. Um Deus que responde, um Deus de milagres, seja qual for a circunstância.Ele sabe o porquê e o domínio está em suas mãos pelos séculos dos séculos. Se cremos que Ele tem tudo e é tudo e nós nada, só aí então, podemos ter Tudo que vem dEle e sermos mais do que podemos imaginar.Tenha fé!
(O Trecho entre aspas foi retirado do livro Consolo, de Eleny Cavalcanti)
Amanda Oliveira (filha da Luz)

domingo, 2 de setembro de 2007

A história de Dayse

Era um travesti alto, magro e desengonçado, e tinha uns implantes. Não sei como começou na homossexualidade, mas disse que tinha sede de Deus desde antes.
Quando criança, num passeio a uma Igreja Católica com sua mãe, viu um caixão de vidro com uma estátua de Jesus dentro. “Igreja do Jesus morto”; a mãe era devota. Quando chegaram perto, ele, pirralho, sentiu que Jesus lhe olhava.
– Mãe, Jesus está vivo!– Pare de dizer besteira, menino...
– ela não viu, mas ele sabia que Jesus não estava morto. Adulto, Daisy foi se desiludindo consigo mesmo numa sede que não terminava por outro tipo de vida, apesar de ter tudo o que um travesti poderia desejar, como um parceiro e um filho adotivo. Ligava o rádio na sintonia dos pentecostais. Ouvia músicas e pregações o dia inteiro. Não se cansava nem da repetição nem dos chavões. Ouvia até a hora de sair para ganhar a vida na rua. Tornou-se um hábito ouvir o evangelho. O parceiro e os vizinhos se irritavam.
Daisy ficava mais amuado, mais convicto. Começou a ler a Bíblia.Uma noite não agüentou mais. Percebeu que não tinha coração para levar a vida assim. Decidiu que aquela seria a sua última noite na rua. Ouviu rádio e pegou a Bíblia. Abriu no primeiro capítulo de Apocalipse, que fala sobre a revelação de Jesus, em suas vestes de luz e língua como espada de fogo. Lindo! Assim seria sua fantasia, a última da vida de rua.– Vou de “drag-jisas”.Enfeitou-se todo de branco e dourado, reverente. Não era uma drag qualquer, era o próprio Jesus de uma maneira simbólica dizendo-lhe que chegara sua hora de mudar. Não conseguiu fazer a vida naquela noite; pregava sem parar, como os pregadores do rádio que ouvia há tanto tempo. Pregava para as prostitutas, para os clientes, para os passantes. O ponto se esvaziou, os habituais corriam para não ouvi-lo. Finalmente, no romper da manhã, tendo arruinado a noite de todos os freqüentadores do ponto, sentou-se feliz, cantando uma daquelas músicas do tipo “sai demônios e vem Jesus”.Logo depois Daisy adoeceu e descobriu-se portador do vírus HIV. Estranhamente não teve medo. Sua irmã conhecia algumas pessoas em Belo Horizonte e resolveu dar uma passada por lá para ver se encontrava ajuda para ele. A vida tem seus caminhos; ao receber a medicação, Daisy encontrou também algumas pessoas do grupo VHIVER, que ajuda portadores do vírus da aids a viver com qualidade. De lá esbarrou nos crentes da Caverna de Adulão e conheceu o Jesus que amava. Converteu-se, “destravecou-se”, “homenzou-se” do melhor jeito que pôde. O parceiro ficara no Rio de Janeiro com o filhinho adotivo. Teve de dizer-lhe que era homem agora e que cuidaria do filho, mas já não seria “casado”. Sentiu-se puro como um bebê. Dizia que já tinha feito sexo demais a vida toda e agora não precisava mais; iria viver para Deus de todo o seu coração...Mas não podia ficar em Belo Horizonte, tinha de voltar ao Rio. O Geraldo, da Caverna, se preocupou: “E agora, o que vai ser de Daisy? Quem vai entendê-lo para integrá-lo?”A essa altura Daisy já se chamava como homem, mas os trejeitos de uma vida no submundo não saem fácil. As marcas (as mãos na cintura, o andar reboloso e a voz fina que ainda desafina) ficam.Daisy voltou para o subúrbio do Rio. Despachou o parceiro, pegou suas coisas e mudou-se. Mas aí veio a parte dura: conseguir um emprego, se sustentar de maneira digna e encontrar uma igreja onde fosse aceito. Nos primeiros meses quase não tinha dinheiro; a única congregação do bairro era o lugar mais perto. As emoções de Daisy ainda eram as emoções de uma caricatura de mulher. Ia à igreja esperando amor como o que encontrara em Belo Horizonte. No começo encontrava o porteiro:– “Tem culto hoje não, desculpe.” – “Ah...” – o ar decepcionado de Daisy não mudava em nada a cara do porteiro. Infelizmente a igreja não conseguiu entender o rapaz. Daisy tentou mais uma e mais outra. Mas o que aconteceria se no bairro vissem aquele homem ainda com peitos freqüentando os cultos? Terminou por entender que não era bem-vindo – mais uma ferida para carregar para quem já sofreu tantas.Sem ajuda na fé e sem apoio econômico e social para recomeçar, a fé de Daisy se apagou. Geraldo o viu um dia desses nas páginas de uma revista, militando pela causa homossexual, e respirou aliviado, pensando: “Pelo menos ele ainda está vivo...”Daisy, se você está lendo isto, tente outra vez. Vamos aprender a caminhar com você pelo caminho da restauração. Vamos aprender a fazer da sua vergonha a nossa vergonha e, pelo nosso amor, fortalecer a sua fé naquele que nos transforma.

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Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM – Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Missões

Milena (Zeninha) - Missões na África


Reunião de oração por missões...
Chegando lá, sentei, vi as fotos de missionários em lugares distantes e missinários urbanos.
Vi pessoas atingidas pela verdade de Cristo, lutando pela verdade de Cristo.
Quando fomos orar alguns pedidos de oração foram feitos:
pela política do nosso país, pela diferença social, pela violência, pela prostituição, pelas drogas, pelas ONG's e o que me chamou mais atenção, pela unidade das igrejas na cidade, no país.
Comecei a orar, mas a única coisa que conseguia falar em minha oração era:

- SENHOR, ME LIVRA DA HIPOCRISIA QUE HÁ EM MIM.

A hipocrisia de achar que é apenas culpa e obrigação dos políticos de fazerem alguma coisa pelo "povo", quando na realidade o povo sou eu e eu tenho que fazer algo por mim mesma e pelos outros, se não fosse assim Jesus não teria dito para ama ao meu próximo como a mim mesmo.
A hipocrisia quando vejo pessoas na miséria e não levanto minha voz e minhas mãos em auxílio. A hipocrisia vendo a prostituição e achar que um dia "alguém" vai ter que chegar perto daquelas pessoas, quando esse alguém sou eu mesma.
A hipocrisia observando drogados entrando por um caminho na maior parte das vezes sem retorno e pensar que aquilo me deprime muito para que eu me envolva, mas não revelar a ninguém o meu sentimento e continuar levantando meu "clamor" apenas.
A dor em ver ONG's fazendo aquilo que nós, como cristãos, deveriamos fazer!
E a pior de todas, a hipocrisia de achar que não somos um só corpo.
De não ver o quanto sou egoísta.

Achar que orar apenas vai resolver todos os problemas de uma nação... poderia sim! Deus é soberano, pode todas as coisas, mas creio que Ele quer nos dar a oportunidade de sermos humanos, de sentirmos, de nos apegarmos ao outro de tal forma que a dor do outro seja a nossa e então quando a alegria do outro vier será a nossa também!
Orar para que Deus chame trabalhadores para a obra é lindo, mas lembrar que Ele chamou a todos para fazermos todo esse trabalho aqui na terra é mais bonito ainda - IR, IR, IR!
Deus deu a nós e não aos anjos o poder de falar das boas novas, porque nós sabemosa dor que os seres humanos sentem.
Falar da graça salvadora que nos sustenta e que nos livrou de uma miséria espiritual, de uma droga de vida, de uma vida alienada e anestesíada pelo egoísmo, prostituída pela ganância, arruinada pelo medo, podre. Muito pior do que aquilo que os olhos conseguem ver em uma prostituta, em um drogado, em um marginal, é um coração falido e uma alma enjaulada e foi disso que Cristo um dia me livrou, salvou.
Tenho um amigo, ele está longe daqui, falo muito com ele sobre missões e muito tenho aprendido sobre doar mais que receber, porque quando se doa assim, de maneira desinteressada, apenas desejando que Deus cresça mais e mais, se recebe muito mais. Abrir mão de mim mesma.
Aprendido também que confiar em Deus e acreditar que Ele proverá realmente é o mais fácil, o mais difícil é meu coração se abrir para essa verdade. E o mais lindo a se fazer, descançar nos braços do Senhor, não sei porque é tão difícil aceitar essa verdade, para um Deus que deu criou o mundo em 6 dias e deu seu único Filho por nos amar, cuidar de nós é apenas um bônus!
Tenho aprendido também que o tempo é dEle, cabe a nós apenas usarmos da melhor forma esse tempo aqui na terra.
Acho que, mesmo longe de tudo aqui, mesmo com saudades grandes, com sonhos maiores que as saudades, ele recebe muito mais que alguém que está apenas de braços cruzados no banco da igreja orando por avivamento ou orando para Deus mandar trabalhadores, recebe algo que o dinheiro não pode comprar e ninguém pode roubar. Recebe as mãos do Senhor ensinando e transformando o interior de tal forma que ele pode sonhar os sonhos de Deus livremente e ter a certeza que Ele está providênciando o mais, como um Pai que cuida de seus filhos.
Recebe a alegria de construir o reino de Deus aqui na terra.
Aprendi a me livrar desse medo e hipocrisia e dizer apenas: Eis-me aqui.
Espero que você entenda que já passa da hora de ir também!

Eu também Cansei - por Guilherme Arruda Aranha

A campanha "cansei", promovida pela OAB/SP e por setor do alto empresariado nacional, auto-intitulada "movimento cívico pelo direito dos brasileiros", convoca os cansados em geral a fazer um minuto de silêncio às 13h00 de hoje "pelo bem do Brasil".
Não contem comigo: não vou fazer um minuto de silêncio nem vou bater panelas, pois cansei mesmo foi das campanhas "da paz", campanhas "contra o governo" e, sobretudo das campanhas do tipo "cansei".
Cansei também dos berros da classe média, oprimida entre os ricos e o crime organizado, se achando o umbigo do universo. Cansei da classe média incapaz de se ver refletida no espelho que é a política, sem a dignidade de assumir que a corrupção que tanto nos critica "outros" é, em sua origem, a mesmíssima daquele que desembolsa cinqüenta reais para não ser multado, que atravessa o sinal vermelho porque não tem guarda olhando e que faz ultrapassagem pelo acostamento na volta do feriadão.
Cansei da classe média que só enxerga a corrupção dos políticos, mas é cega e complacente com empresários corruptores e sonegadores de impostos. Cansei da classe média que não se dá conta que a moral só existe na primeira pessoa e que o resto é moralismo (para quem negocia com o dinheiro público, seja político ou empresário, desejo apenas a aplicação da lei).
Cansei da classe média pedindo o retorno de governo autoritário, de direita ou de esquerda, pouco me importa, para "moralizar essa bagunça". Era só o que faltava. Cansei da classe média disparando e-mails ideológicos e confundindo isso com consciência política.
Cansei da classe média com acesso a ensino de qualidade mas que só lê, quando lê, o mesmo jornal, a mesma revista de sempre e nunca leu Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Marx, Proudhon ou Weber. Não precisava sequer ler na fonte, bastava pegar um livro introdutório para entender algumas das divergências entre tantos autores geniais, atentos às riquezas e misérias da formação daquilo que chamamos hoje de Estado moderno, situando-se um pouco melhor no mundo em que vivemos.
Cansei de uma classe média que odeia a política pelo erro primário e cristão de confundir seres humanos com anjos, o que é uma receita para a decepção, pois é óbvio que homens não são anjos e, portanto, precisamos de política, este mal necessário.
Cansei do mesmo bom-mocismo que divide o mundo de forma maniqueísta: o "Bem" está com a classe média, o "Mal" está com os políticos, aqueles estranhos seres corruptos que vieram de outro planeta e precisam ser exterminados.
Cansei também de achar que o Brasil é uma porcaria maior do que outros países (não é mais nem menos porcaria que EUA, Cuba, França, Canadá, Japão, Austrália, Espanha, Itália ou Suíça). O Brasil tem suas contradições (como qualquer país) e uma delas é ser uma força econômica com péssima distribuição de renda. Aqui a noção de poder legal (Weber) ainda é subversiva e o capitalismo é selvagem. E uma hora os pobres virão mesmo cobrar o que é deles. Agora agüenta, classe média: a incompetência também é nossa e não só dos políticos. Agora agüenta, elite blindada e herdeira de nossa tradição autoritária: a má distribuição de renda é um problema coletivo; a indústria dos carros blindados e dos condomínios murados, uma solução individual (e individualista).
Mas essa equação não fecha: não há soluções individuais para problemas coletivos. Em suma: como advogado paulista não me sinto "representado" aqui pela OAB/SP (não foi com o meu aval que esta entidade uniu-se à "indignação" de um empresário como João Dória Junior, a quem apraz promover desfile de cachorros de madame em Campos de Jordão).
Como cidadão, não vejo nada de "cívico" nesse movimento, orquestrado sabe-se lá com qual verdadeira finalidade. E se uma dessas finalidades for um movimento "fora Lula", sou contra, assim como era contra o "fora FHC", não por simpatia política, mas por convicção democrática. Antes que me perguntem qual é, afinal, a solução para todos os problemas de nosso país, respondo o óbvio: não sei. Sei apenas que não existe mágica.
Fiquemos, pois, com a política e façamos dela a nossa responsabilidade (e não apenas a responsabilidade dos "outros", os políticos), conscientes de que no meio do caminho há pedras. Sempre haverá pedras no meio do caminho.
Hoje, portanto, não bato panelas nem faço um minuto de silêncio. Há exatos 20 anos, aliás, morria Drummond. Às 13h00 de hoje, em homenagem ao poeta, chutarei uma pedra na rua. Ao anoitecer, porém, saberei que "é a hora dos corvos, bicando em mim meu passado, meu futuro, meu degredo: desta hora, sim, tenho medo".
Guilherme Arruda Aranha, 35, advogado, mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC/SP e professor de Filosofia do Direito (PUC/SP e UNIFIEO), além de pertencer à classe média.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Vozes. (Ricardo Gondim)




“As minhas ovelhas ouvem a minha voz”. – Jesus de Nazaré.

Há muito meus ouvidos se fizeram surdos; não distingo o imperceptível som de tua voz.
Peço-te que só mais uma vez fales “Efatá” e se abrirão os meus ouvidos.

Quero ouvir teu chamado para seguir a imponderável senda dos profetas que mesmo debaixo de chuva de granizo, defendem a viúva e o órfão.

Quero saber ouvir tua voz de dentro das delegacias sujas,
dos manicômios de muros altos das enfermarias esquecidas.

Quero ouvir teu lamento sobre as nações
que rejeitam os pacificadores,
que apedrejam os esfomeados de justiça,
que se esquecem de abrigar o estrangeiro.

Quero ouvir teus conselhos sobre os perigos da riqueza,
sobre os religiosos que guardam a letra como ortodoxolatria,
sobre a estupidez de ganhar o mundo e deixar a alma entrevada.

Quero ouvir tuas histórias sobre aquele homem bondoso
com um desconhecido caído na calçada sobre aquele
Pai que esperava no alpendre seu filho cansado da orgia,
sobre aquele anfitrião que catou os menos nobres para seu banquete.

Quero ouvir tua advertência de que teus filhos
não são poupados das inclemências do mundo,
não desceste para estar conosco numa redoma.

Quero ouvir tua promessa de que estarás ao nosso lado
em toda circunstância até que tudo termine,
de que enviarás teu Espírito que será um leal conselheiro na verdade.

Quero ouvir teu sussurro me confortando de que falta muito pouco
para festejarmos numa grande festa para dançar e beber vinho de qualidade.
Se tuas ovelhas percebem tua voz, quero, mais do que tudo, que fales e responderei:
Teu Servo ouve.

Soli Deo Gloria.